O Encontro

Ela acordou animada, sequer reclamou quando o despertador acordara desesperado e insistente. Arrumou-se com zelo, apreciou seu rosto delicado em frente ao espelho e saiu ritmada pela Sinfonia 41, a Júpiter - última de Mozart.
Caminhou por calçadas deterioradas e sujas enquanto analisava os próprios sapatos vermelhos e os alheios rostos inexpressivos. As nuvens formavam uma cortina à frente do sol e ela notou que logo mais uma certeira garoa deitaria sobre a cidade mal-humorada. O homenzinho de braços abertos do sinal tornou-se vermelho, proibindo-a de atravessar as faixas paralelas marcadas no chão. Encostou-se no poste para aguardar descansada. Nesse instante, porém, ela o viu.

Os dois encontraram-se no olhar. Milésimos de segundos, conectados e invadidos. Duplamente fascinados.

Ela lançou um sorriso tímido, abaixou os olhos timidamente, levantou-os de novo, fitaram-se mais uma vez. Ele pôde sentir seu cheiro, imaginar a textura de sua pele e provar o gosto de seus lábios: previsões. Deu alguns pequenos passos na direção dos olhos maquiados, apresentou-se e deslizou o indicador sobre a face delicada. Sorriu por completo, a envolveu em seus braços e foram os dois até o café da esquina, para conhecerem-se e apaixonarem-se.

Despertou do transe e procurou-o sem sucesso. O homenzinho tornara-se verde, algumas dúzias de pessoas atravessavam as listras paralelas. E ele sumira, como todo bom pretendente transeunte.

Segredos

Miúda, pernas finas e cheias de hematomas infantis, ela gosta de sentar nos degraus que dão para a rua para observar as pessoas, seus passos, suas roupas e suas esquisitices. Calça um par de chinelos velhos que quase não cabem mais em seus pés. O vestido doado pela sobrinha da vizinha sobra para todos os lados, as alças insistem em descuidosamente cairem por sobre os ombros magros. Os dedos compridos interrompem a organizada fila das formigas e caçam os tatus-bolas que também passam por ali.
O vento balança as folhas da macieira no quintal ao fundo. Um vento sutil e musicado, faz-lhe carinho nos cabelos compridos e cacheados, anéis loiros brilhando sob o sol forte do verão. Ela os enrola no mesmo dedo onde enrolou-se também o tímido amigo tatuzinho. Sorri para a senhora que vende doces. Os doces - chamativos, provocantes e tentadores - que ela nunca pôde comprar. É capaz de imaginar os sabores e como derretem na boca; sonha com o dia em que terá moedas suficientes para pagar aquela preciosidade. E sorri mais uma vez; para si mesma, para as ideias que alimenta lá dentro.
O sorriso é de dentes minúsculos e intensamente brancos. Ele abre covinhas, buracos delicados nas bochechas sardentas e rechonchudas. Aquele mesmo dedo da brincadeira com os insetos desliza sobre a cavidade, porque ela acha aquilo engraçado.
Uma voz grossa, forte o suficiente para penetrar-lhe na alma, a chama. O sorriso, a covinha, o indicador curioso: tudo se esconde. Tenta fingir que não escutou, mas o homem repete seu nome, ainda mais agressivo. Ela se vira lentamente, como se o vento agora fosse toda uma tempestade. Seus olhos caminham aos poucos pelo pobre e maltratado jardim, findando por chegar aos pés descalços e calejados que tanto conhece. O homem começa a esbravejar e reclamar por sua demora. Fraca, vencida... Ela levanta como se pesasse toneladas. De tristeza.
Limpa o vestido e anda na direção dos pés descalços. Eles viram mãos, que abrem a porta, que a empurram para dentro. Ela olha para os lados, à procura da saia rendada e do avental maternos; uma busca desesperada e certamente improdutiva. Ouve um grito, estremece. Aquelas mãos tomam-lhe o braço, ela sente-se quebrar por inteiro, imagina-se em cacos, espalhados pelo chão. Seria melhor do que a realidade.
A porta atrás de si é fechada e trancada. O homem a joga na cama estreita, o urso de pelúcia olha com piedade. E ela fecha os olhos. De novo aquelas mãos, aquele cheiro insuportável, aquela dor - é capaz de sentir tudo antes mesmo do princípio. Já não há resistência, não há esperança. Ele não vai parar até conseguir o que quer. E quando termina, as mãos que vagaram pelo corpo num repugnante desejo surram-na, porém ferem-na menos do que antes.
O algoz vai embora. Ela abraça o amigo urso, acaricia delicadamente suas orelhas macias. E chora. O choro traz o sono, e no sonho ela pode fugir.

Brincando de ser malvado

Criança é má. Não quer acreditar no que leu? Pois repito: criança é má! E muito.
As pessoas têm mania de dizer que nascemos puros, sem maldade no coração. Não acreditei nisso nem quando ainda pensava que Papai Noel existia (se você ainda espera a figura vermelha barbuda todo final de ano, perdoe-me, não tive intenção de destruir o seu Natal). Chamar uma criança de anjinho é a coisa mais sem sentido do universo. Ok, elas são mais sinceras, mais verdadeiras, falam o que pensam e não usam máscaras. Agora canonizá-las é um erro grotesco. Quem teve infância não pode crer nessa ideia.
Apelidos, eis o primeiro argumento. Se você foi gordinho, magricela, muito pobre, rico demais, alto, baixo, bonito, feio, enfim, se você tinha alguma característica marcante sabe do que eu falo. Qualquer coisa lhe conferia uma alcunha maliciosa e na maioria das vezes ofensiva. A questão não é batizar o amiguinho com algum adjetivo engraçadinho; o problema está quando aquilo faz tão mal que ultrapassa a diversão. O pobre coitado pode chorar, pode bater ou xingar - para os demais continua sendo engraçado, mesmo que se perceba a olhos vistos como a outra "pessoinha" sofre. Os alvos mais fortes, psicologicamente falando, vão fingir que também acham graça para que uma hora os torturadores de plantão se cansem (ou não). Quando se tem 20 anos, apelidos já não te causam reação alguma, afinal foram anos convivendo com eles. Aos 7 anos, entretanto, ser chamado de botijão só faz aumentar a vontade de ser quem não se é. Se você não traz esse tipo de trauma, parabéns. Eu, sim.
Ridicularizar é, portanto, o esporte preferido do ser humano, desde que ele se entende por gente. É uma questão de autoafirmação, de sentir-se melhor consigo mesmo à custa da desgraça alheia. Essa atividade tão prazerosa se estende aos mais diversos campos da interação social na infância: dizer ao Joãozinho que ele é feio quando lhe pedir em namorico, jogar a bola na cara do amiguinho, amarrar o seu cadarço para que ele caia, dizer que sua mãe não o ama, chamar o outro de burro enquanto segura uma prova nota 10 de matemática, roubar o lanche que o pobre coitado levou para o recreio, afastar-se da menininha estranha que dizem ser piolhenta para também não ser considerado como tal... As opções são muitas! É nessa fase que você aprende como funciona a sociedade, o que vier depois é lucro.
Lembro bem de quando me apontaram no pátio, porque minha mochila não era de carrinho como das outras meninas. Uma outra vez fui segregada por ser a amigona da moradora da favela, que devorava a merenda da escola já que em sua casa não havia tanta comida. Riam do meu nome, principalmente quando alguma professora ou outro funcionário liam-no errado. Já me chamaram de gordinha, de feia. Até que uma hora eu pensei "que se fodam esses pau no cu". Mentira, eu não falava palavrão porque era feio. Mas entendi que o melhor era viver sem levar (muito) em consideração a opinião alheia.
Outro dia ouvi um depoimento de uma mãe contando como a filha era discriminada por outras crianças apenas por ser portadora de uma deficiência física. De cortar o coração, principalmente porque eu sou manteiga derretida. Os "anjinhos" apontavam-na rindo, dizendo em alto e bom som que não queriam-na ali, que eles não brincavam com "monstrinhos". Provavelmente, enquanto isso os pais dessas crianças as veem com auréolas na cabeça e nem imaginam como podem ser cruéis.
A culpa talvez seja até deles, por não observarem com mais atenção sua prole, por não corrigirem más atitudes na hora certa e, o mais relevante, por darem exemplos errados, distorcidos.
Não prego a vida chata de um politicamente correto, longe disso. Mas será certo divertir-se com o sofrimento dos outros? Outros tão frágeis como nós mesmos. Antes de aprendermos o abecedário seria melhor termos aulas de filosofia e ética, talvez.

Revendo conceitos

Não vejo meus melhores amigos há mais de um ano. Não vi meu namorado essa semana. Não posso aceitar os convites que me fazem sem antes ter certeza de que haverá condições. Além de tudo, nunca tenho dinheiro - e não vou pedir a toda hora, óbvio. Por isso já não lembram tanto de mim, já não me ligam como antes. Talvez saibam que a resposta vai alternar entre o não instantâneo ou o talvez desanimado.
E ontem, quando queria chorar para alguém, quando procurei aquele amigo que me ajudasse, que me aturasse, que ao menos me mandasse para a puta que me pariu e que eu deixasse de frescura... Não encontrei.
Será que me tornei uma pessoa assim tão chata?
Se a resposta for sim, prometo mudar. Vocês voltam?

Para sempre?

Luís era ainda Luisinho. Andava relutante de uniforme azul, vermelho e branco, tênis novo no qual acabara de treinar a técnica de amarrar os cadarços, meias tão brancas quanto as madeixas da Vovó Matilde, o cabelo dividido no meio e a lancheira do ThunderCats gelada do Toddynho. A mãe insistia, puxava, enumerava argumentos para defender a idéia de que escola era um lugar muito divertido e importante, onde ele conheceria vários amiguinhos.
Amiguinhos? Ele se questionava, por que precisaria de mais amiguinhos? Tinha o primo, o vizinho e os brinquedos, estava bom demais. Imaginar mais pessoas que fossem dividir suas coisas, propôr outras brincadeiras... Isso não era nem um pouco legal. Mas ele era obrigado a ir naquela tal de escola. Restava-lhe rogar milhares de pragas sobre quem teria inventado essa coisa sem sentido e continuar a caminhada forçada.
Chegaram os dois no portão colorido. A mãe entregou-lhe a mochila (também do ThunderCats), deu-lhe um beijo, disse meia dúzia de palavras falsamente animadoras. Uma moça de avental sorriu e puxou conversa. Sua mãe lhe ensinou que não se podia dar informações para estranhos, portanto recusou responder o que ela lhe perguntava. Como se apresentou como sua professora, porém, ele achou melhor obedecer e dizer até o que não precisava.
Entraram na sala, ele ocupou um lugar. Tirou o caderno, o estojo e percebeu os olhares. Evitou nos primeiros momentos, mas ao final da tarde já estava lá, chamando Paulinho para brincar de bafo (percebeu como este tinha várias figurinhas interessantes que ele procurava!). Eis o primeiro dia de aula, o primeiro amigo. Com o tempo já não chamava só Paulinho para as brincadeiras - conhecia todos e até falava para a mãe que os queria como convidados na sua próxima festa de aniversário.
Por anos foi isso. Amigos eram sinônimos de diversão. Pouco conversavam sobre o mundo, sobre as pessoas. Tudo era ligeiramente irreal, fantasioso, lúdico. Bastavam os brinquedos, as risadas, as brigas e alguns choros. Nada que não fosse possível resolver com o intermédio das mães.
Aniversários regados a bexigões e decorações - de dar inveja às melhores cenografias televisivas - aconteceram. O passar dos anos provocou o asco de Luisinho por essa denominação diminutiva. Pegava mal, principalmente na frente dos amigos. "Amigos, mãe, eu sou grande já! Amiguinho não!!" Contava com quase uma década de idade já, uau. E não gostava de incluir meninas em seus projetos e relacionamentos; não aguentava a forma como reclamavam, como eram nojentas, como choravam por causa de um empurrãozinho. Abominava. Enquanto isso, adorava agredir os coleguinhas, contar histórias mais interessantes que as deles. Começou a ter noção de que amigos nem sempre fazem coisas legais. Mas existia videogame, futebol... Dava para resolver. E assim seria para sempre.
Depois de mais alguns anos, a adolescência chegou. Meninas, hum! Como ficaram interessantes, diferentes e tentadoras. A outrora Lolô, agora Heloísa, peitudinha, coxa chamando atenção nas aulas de Educação Física, repetia a todo momento que os dois haviam crescido juntos, que ele era um grande amigo. Nesse dia decidiu que amizade com mulher inviabilizava qualquer alívio sexual. E se enfiava no banheiro.
Para os amigos contava histórias de sexo alucinado, posava de garanhão. Comentavam das amigas de sala, das vizinhas, alguns atreviam-se a falar da irmã alheia. Luís (ou melhor, Luisão: era o mais alto), filho único, podia falar de qualquer uma.
Mas não bastavam as conversas sobre sexo. Conheciam de forma mais vasta a música, começaram a experimentar coisas juntos, reclamavam dos pais, da vida. Luís planejava morar com alguns deles, dividir um apartamento no centro onde pudessem levar quem quisessem, fazer festas a hora que desejassem.
Perguntava aos mais íntimos o que fazia em relação à Heloísa, e foi com a ajuda deles que os dois se beijaram, que os dois se agarraram, que os dois transaram. Amigos. Luís traduzia essa palavra numa vastidão impressionante; era a solução dos seus problemas, o seu futuro, seus segredos, seus medos. Todos estavam praticamente no mesmo barco, sentiam a mesma coisa. Seus amigos eram ele próprio. E assim seria para sempre.
Pena que ninguém fica toda a eternidade na escola. Terceiro colegial, aquela vadiagem no primeiro semestre inteiro, o desespero depois das férias de julho. Luís se sentia o mais perdido em relação a seu futuro, não tinha idéia sobre o que ser para o resto da vida. Paulo, o Paulinho daquele primeiro dia de aula, decidiu-se pela Medicina, preparava-se para mais alguns anos de cursinho. E ele, na dúvida.
Forçaram-no a fazer teste vocacional, a visitar faculdades, a conversar com profissionais. Jornalismo, pronto. Sempre gostou de escrever, de investigar - achou que era o suficiente. O Ensino Médio acabou, várias festas rolaram, Heloísa chorou em seus braços, ele a pediu em namoro. Alguns amigos reclamaram, se afastaram, lhes parecia que Luisão perdia a graça sem a vida de solteiro pegador como a deles.
Formados, uns já foram para a universidade, outros para o cursinho (como ele mesmo e o amigão Paulo), outros ficaram vadiando escondidos na desculpa de que precisavam decidir sobre a profissão. Prometeram, entretanto, que não se separariam, que se veriam sempre, alguns fizeram pactos de amizade até a velhice.
Isso aconteceu? Inicialmente sim. Só que a vida se encaminha, novos amigos aparecem, Heloísa conhece um cara mais interessante, o trabalho começa a consumir a vida nova. Agora eles se falam via internet (quando o destino os coloca online na mesma hora).
Depois, chegado à casa dos 20 e poucos anos, Luís cursa a faculdade, dirige, mora sozinho. O Paulo alugou um apê no mesmo quarteirão, está sempre lá. Novos amigos surgem: da balada, do trabalho, da vizinhança, conhecidos dos conhecidos. Tudo muito passageiro. Mulheres, os grandes problemas, discutidas e analisadas em mesas de bar, em partidas de sinuca. Comê-las, sempre. Procurá-las mais, talvez. Casar-se, jamais.
Mas desde sempre o ser humano morde sua própria língua. Luís, formado, conhece a prima de Paulo. Com todo respeito: que foda, que noite! Precisa procurá-la mais vezes, uma caça inusitadamente deliciosa. E os amigos fazem piada, dizem que ele está amarrado, fazem sinal para chamá-lo de encoleirado. E Paulo dá força, talvez por também estar aflitivamente interessado por uma ruiva do trabalho.
Ele muda de emprego, conhece outros tantos amigos. As conversas andam mais sérias, mais densas. Luís decide, sem ouvir os solteirões convictos: quer viver com Eduarda até o fim de sua vida. Ama e nessa hora os colegas o respeitam, talvez porque também amem às escondidas, talvez porque também desejam amar.
Anos e mais anos. Luís é pai, jornalista conhecido, apresenta os primeiros cabelos grisalhos. Os amigos do colégio não vê faz muitos anos. Os do trabalho... Mudam alguns, outros permanecem. Surgem novos, nem todos fiéis e verdadeiros o suficiente para ficarem. E Paulo, categoria à parte, agora compadre, irmão.
Enfim, a velhice. Os filhos têm sua própria família, a própria vida. Aposentadoria. Já nem sabe por onde andam os caras do trabalho, das partidinhas de futebol, de golfe. Sua vida anda limitada: idade é sinônimo de dor. Prefere um vinho e um jantar bem preparado, uma conversa longa, divagações.
Conta nos dedos de uma mão aqueles que são amigos, que merecem sua confiança e seu respeito. Mas cada ano morre um. E sobra Paulo, o amigo de bafo, de álcool, mulheres, faculdade, família, vida. E assim será, para sempre até também partirem os dois.

XX é diferente de XY

Carolina não usa esmalte vermelho porque gosta de dar para todo mundo; é bonito, ela acha fashion, só isso. Mariana usa decote e estampa de oncinha, mas não é puta nem piriguete - aliás, faz seis meses que não transa nem dá uns amassos mais empolgantes com um cara. Juliana deu na primeira noite que conheceu Otávio. Por quê? Afinidade e atração incontroláveis, ela nunca tinha feito isso antes. Mas Otávio saiu dizendo para os amigos que Juliana era "bem gostosa mas fácil demais, vadiazinha, só serve pra uma fodinha casual". Já Laura recusou a ida à casa do bofe delicinha: eles tinham saído poucas vezes, o dito cujo teria má impressão. Nunca mais ligou. Olívia esperou, esperou e o cara da balada não agia. Solução? Foi lá puxar assunto e jogou uma indireta que surtiu efeito. Pena que depois dos beijos cinematográficos o sujeito tenha mandado uma mensagem chamando-a de saidinha, perguntando se ela estava afim de uma suruba com uma ex-namorada dele. Olívia, indignada, mandou o sujeito para os infernos (ou coisa pior) e ele revoltou-se: "Você vem toda moderninha me agarrar na balada e agora tá fazendo cu doce?". Suzana conheceu um homem incrível. Mais velho, experiente, culto e agradável. Ela se entregou de corpo e alma, acreditou ser a mulher mais sortuda do universo! O porém logo veio - o maduro era casado e não entendeu por que Suzana sentiu-se ofendida quando ele disse que independente disso poderiam continuar a relação. Bruna buscava tratar da melhor maneira possível os colegas de trabalho, de ambos os sexos. Um dos homens, entretanto, interpretou a coisa erroneamente e lançou uma "cantada baixo-nível". Esquentadinha, ela deu-lhe um bom tapa na cara e mesmo assim foi obrigada a ouvir desaforo. Paula engravidou do bonitão da academia; quando contou, ele sumiu. Antes a chamou de safada golpista e mandou que ela arranjasse outro "otário pra bancar essa merda de criança". Vitória... Vitória é amiga de todas elas. Impetuosa, por ora desistiu dos homens. E comprou um vibrador.

Adeus sem lenço branco

É difícil ver alguém partir. Talvez seja ainda mais difícil quando o alguém parte devagar, perdendo-se e fazendo-se perder dos demais a cada dia. O adeus extenso é tão ruim porque você não é capaz de acenar e simplesmente virar as costas; é como se fossem dados passos para trás em sentidos opostos, os olhos vidrados no do outro, a mão ainda estendida.
É assim que eu vejo meu pai partir. Aos poucos, em cada momento que ele sente dor, que ele geme, que ele nos olha numa tentativa de soltar o grito que sua garganta já não pode mais produzir.
O silêncio de seus olhos suplicantes me dá reviravoltas no estômago e uma aguda sensação de dor extracorpórea. Suas pernas endurecidas e quase imóveis exigem uma força dos braços e da alma. A respiração difícil enche meu peito de angústia. As dores, a aflição e o mal estar, é tudo tão constrangedor para uma pessoa saudável como eu, mas acima de tudo... é perturbador.
Por isso tudo eu me perco. Em determinadas horas é revolta, depois desespero, logo vem a tristeza, seguida do desconsolo apático. E tudo parece bem mais penoso.
Há 2 anos, ainda de pé e falando, ele disse que eu não precisava ter medo, que dali em diante viveríamos cada momento sem pensar no futuro. Nunca consegui encarar as coisas assim, e agora é ainda mais difícil. Ele ainda tenta, com certeza, pois mantém o riso, escreve poesias com o mínimo movimento da mão, nos manda beijos pelo olhar e tenta sobreviver como pode. Ainda é forte, por nós dois.
Enquanto isso, eu me preparo. Para o dia seguinte, para o próximo obstáculo da doença, para a partida. E mantenho os meus olhos sobre ele, cada um dando seu passo para trás, com as mãos estendidas.


[às vezes é bom desabafar]

Quando 2 + 2 = 0

No exercício da matemática mais imperfeita do mundo: é assim que o ser humano vive e se relaciona. Ninguém entende as incógnitas, as leis, os princípios e não sabe usar as fórmulas; mas todos fingem dominar os conceitos. E assim os dias passam - todos perdidos com cara de sabidos.
Talvez o mundo precise de mais sinceridade e menos orgulho. As conversas francas e as demonstrações claras de sentimento resolveriam todas as equações, dos casos de paixão avassaladora aos choques familiares.
Ou é isso ou minha visão de mundo que anda muito ácida.

Declaração

Eu choro e tudo continua meio ruim. Meio, porque uma professora da 3ª série me ensinou a ser comedida. Na verdade, eu já era, só fiquei mais.

Ponto final pra recomeçar.

É fome e vontade do que logo dá nojo. Felicidade repentina proveniente de um aborrecimento relevante. Preguiça de fazer nada. Abatimento de tanto animar-se. Raiva passageira que perdura por dias. Desprezo pela importância de tudo. Sorte de sempre dar azar. Saudade de tudo que está perto. Tristeza nascida num momento de alegria. Amnésia das lembranças mais significativas. Doce amargura do azedo da vida. Revolta por aquilo que se entende. Gritos mudos de injustiça. Mudas vozes de ingratidão. Devoção descrente por um futuro que não surgirá. Inércia de um movimento inconstante que mantém-se firme. Sentido que não tem percepção.
Vc sabe o que é? Eu não sei. Só sinto. Só sinto muito.

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